O Impacto da Tecnologia nos Ativos Financeiros

O Impacto da Tecnologia nos Ativos Financeiros

Na última década, assistimos a uma revolução sem precedentes. A transformação digital deixou de ser apenas um slogan para se tornar o núcleo de valor dos ativos financeiros. Hoje, ao avaliar uma ação ou um título, é imprescindível analisar a infraestrutura tecnológica que sustenta emissor, custódia e mercado.

Este artigo explora como a tecnologia está redesenhando o panorama de ativos, aumentando acesso, liquidez e eficiência, ao mesmo tempo em que introduz novos desafios. Entender essa dinâmica é essencial para investidores, gestores e reguladores.

1. Panorama: digitalização do sistema financeiro

A digitalização não é apenas a adoção de aplicativos bancários. É uma mudança estrutural que permeia todas as etapas de vida de um ativo financeiro. Desde a emissão até a liquidação, as tecnologias exercem influência direta sobre:

  • Processos de registro e custódia em blockchain.
  • Precificação via algoritmos de IA.
  • Distribuição por meio de plataformas digitais e APIs.

Dados de 2025 indicam que o orçamento de tecnologia dos bancos brasileiros deve alcançar R$ 47,8 bilhões, um crescimento de 13% em relação a 2024. Em cinco anos, houve avanço de 58% nos investimentos, comprovando que tecnologia é prioridade estratégica e não custo acessório.

2. Pagamentos instantâneos e open finance

Sistemas como Pix e iniciativas de open finance formam hoje parte da base de infraestrutura financeira. Eles:

  • Reduzem o tempo de transferência para segundos, aumentando a agilidade na liquidez.
  • Promovem a integração entre bancos, fintechs e outros provedores de serviço.
  • Estimularam em 2025 um aumento de 48% nos recursos alocados ao Pix e 65% em Open Finance pelas instituições.

Essa convergência gera oportunidades de inclusão financeira massiva, permitindo que investidores de menor porte acessem ativos antes restritos a grandes players.

3. IA e GenAI na gestão de ativos

A adoção de IA gerativa passou de 0% para mais de 80% das instituições em poucos anos. O impacto se reflete em:

  • Aumento médio de 11,4% na eficiência operacional, com 38% das instituições relatando ganhos acima de 20%.
  • Prevenção de fraudes aprimorada, citada como prioridade por 90% das empresas.
  • Modelos de crédito e de pricing mais precisos, reduzindo perdas e melhorando margens.

Investir em tecnologia de IA não é apenas automação: trata-se de construir inteligência de análise que valoriza ativos, reduz riscos e antecipa tendências de mercado.

4. Blockchain, cripto, DeFi e tokenização

A tokenização de ativos do mundo real (RWA) permite fracionar imóveis, recebíveis e commodities em tokens negociáveis 24/7. Essa inovação traz:

Maior liquidez dos ativos, pois investidores globais podem negociar cotas fracionadas com rapidez e custos reduzidos.

No entanto, a descentralização também expõe os investidores a:

  • Volatilidade das criptomoedas.
  • Riscos regulatórios e de cibersegurança em protocolos DeFi.
  • Possível concentração de dados em exchanges e corretoras digitais.

5. ESG tecnológico: eficiência, inclusão e riscos

A tecnologia pode amplificar impactos socioambientais. A computação em nuvem e IA demandam energia e podem gerar pegada de carbono elevada. Já a tokenização impulsiona a inclusão, mas:

Exige governança robusta para mitigar fraudes e proteger dados pessoais. A ética na programação de algoritmos e a segurança cibernética devem ser prioridades, especialmente quando ativos tokenizados circulam sem intermediários tradicionais.

6. Impacto sobre bancos, gestoras, fintechs e investidores

Bancos investem cada vez mais em tecnologia. Em 2025, 61% dos recursos serão destinados a IA e analytics, 59% à migração para nuvem. O resultado:

  • Mais de 15% de crescimento nos postos de trabalho em TI bancária.
  • Plataformas digitais disputando a captação de recursos e a oferta de produtos estruturados.

Gestoras e fintechs, por sua vez, aproveitam modelos baseados em dados para segmentar clientes e oferecer soluções sob medida, elevando a competição por performance e pela retenção de investidores.

7. Cenários para os próximos 5–10 anos

O futuro aponta para uma convergência ainda maior entre finanças centralizadas e descentralizadas:

  • CBDCs ganharão espaço, promovendo programabilidade de ativos e novas ferramentas de política monetária.
  • Protocolos DeFi serão cada vez mais regulados, permitindo interoperabilidade com mercados tradicionais.
  • IA generativa atenderá não apenas backoffice, mas também investidor pessoa física, por meio de robo-advisors avançados.

Em cada um desses horizontes, a tecnologia continuará a moldar os critérios de valuation, ao lado dos indicadores clássicos de fluxo de caixa e governança.

Conclusão

A tecnologia deixou de ser mera infraestrutura de apoio. Ela se tornou componente estrutural do valor dos ativos financeiros, exigindo uma visão integrada de finanças e tecnologia. Investidores que consideram exclusivamente fluxos de caixa perdem a dimensão da segurança, eficiência e inovação embutidas na infraestrutura tecnológica de cada emissor.

Em um mundo onde Pix, open finance, IA e blockchain convergem, o futuro dos ativos é digital e interligado. Prepare-se para avaliar não apenas balanços, mas também algoritmos, contratos inteligentes e protocolos de segurança. Assim, será possível identificar as oportunidades mais promissoras e antecipar riscos emergentes.

Por Giovanni Medeiros

Giovanni Medeiros